Sunday, 22 February 2009

Madrugadas Insanas #8

Eu sabia que não tinha o direito de sequestrar a sanidade daquele menino, ou então (cor)romper suas idéias, influenciar seu destino. É que a festa estava rolando solta e ele de repente apareceu ali no quintal e me ofereceu um pouco de vinho. Peguei a garrafa e senti aquele gosto passando pela garganta com a intenção de que a vida pudesse ser bebida daquela forma também.

Mas o estrago já estava feito. Os pequenos olhos amendoados ficaram enormes, de certo assustados com a minha sede de vinho, sede de vida, de coisas que me alterassem o estado normal, que me tirassem da inércia. Coisas que fossem o F necessário para que a massa vezes aceleração me colocasse em movimento. De certa forma eu estava dentro do cérebro daquele garoto. Talvez ele nunca tivesse pensado que aquela vida que ele presenciava agora existia 24 horas por dia e 7 dias por semana. Fora do quartinho azul com cortinas brancas que mamãe decorou para ele, existia um outro mundo. E eu era o caos, mas sentia que ele sentia a paixão pelo caos. E esse, era novamente mais um começo de fim, que sempre termina como bem já sabemos.

Após um minuto de silêncio e meia garrafa de vinho bebida, resolvi passar o recipiente pro carinha ter a oportunidade de encostar na minha saliva que fixou-se no gargalo. E ele então bebeu. E enquanto bebia, me olhava fixamente e eu o olhava de volta sem desviar o olhar porque, por mais que isso me desse uma vontade de rir - talvez pela bebedeira, sei lá - eu não conseguia sorrir. Eu apenas olhava e dizia "sim, é isso mesmo". Estávamos tendo uma conversa telepática. 

Ele então colocou a garrafa no chão e nesse momento aproveitou-se para sentar-se encostado na parede da casa. Lá dentro, as pessoas bebiam, gritavam, dançavam, ficavam doidonas. Na rua, eu me esvaziava bebendo vinho e ele se enchia, se enchia de mim e queria me pegar pra si.

Os cabelos dele movimentavam-se um pouco ao vento. Era tão lindo ver aquela inocência, aquele corpo miúdo. Mas na realidade eu estava indiferente. Jamais poderia. Seria crime, pecado, seria sair da linha, perder as estribeiras, seria insano e repugnante.

Ele não precisou abrir a boca para sequer solicitar que eu o acompanhasse. Saímos em uma caminhada pelo enorme jardim da casa, até que nos perdemos propositalmente por dentre árvores que fecharam a noite. 

Nos deitamos na grama. E ele começou a falar sobre estrelas, sobre os planetas, falou que era muito peste quando criança e que era de áries. E o ascendente, ele achava que era libra, não sabia. E eu nesse momento sorri. E ele então deu uma risada baixinha e tímida, ao mesmo tempo viramo-nos um para o outro, ele encostou o nariz dele no meu e falou "não...eu ainda não saltei de pára-quedas, mas posso parar a tua queda". 

Então ele me abraçou. E me vestiu dele, sem hesitar ele quis amanhecer em mim, iluminados pela luz de estrelas cadentes...esperando o início do fim. 

3 comments:

Rody Cáceres said...

nossa que producao...e um texto otimo, dei apenas uma lida mas achei super legal...o melhor e qua fico imaginadno as cenas...teus textos conseguem me transpoprtar para o cenario e sinto ate as emocoes...algumas perdidas com o passar do tempo...teus textos me levam de volta aos 20 anos...muito Rock...bebidas...e no meu caso...amores platonicos...GAROTOS NAO RESISTEM AOS SEUS MISTERIOS...PERTO DE UMA MULHER ...SAO SO GAROTOS...

Leonardo said...

Mas que coisa, rolou até uma aula de cinemática ali ;-).

Concordo com o carinha aí em cima. Consegui me transportar para o pátio da casa. Contigo.

César said...

Leis físicas que se impõem aos corpos que regem...? Reações derivadas de ações integrais, levadas ao limite...? Tempo e espaço em interação...? Tudo fruto de uma maçã caída na cabeça de Newton, ou do que uma maçã consumida, mesmo proibida, haveria provocado na cabeça de Eva...? Eve and ... the naive...