Friday, 20 February 2009

Era verão de 97. Ela cantava qualquer música dos Beatles enquanto ele dirigia. Olhos vidrados na estrada escura, almas perdidas pela rua e um vazio interno capaz de abrigar mais de mil pessoas. Impressionante como os vazios são cheios às vezes... 

Nada poderia tocar aquele momento, aqueles momentos, nada poderia promover sequer uma rachadura na estrutura firme daquele verão de 97, nada poderia colocar por água abaixo o plano de tornar aquela vida quente, sagaz, corajosa e viva no sentido mais pleno da palavra. 

Eles discutiram muito sobre artes e ciências, literatura e música, sociologia e biologia. Aumentaram seus sentidos pelo toque um no outro, pelo falar, respirar, olhar um com o outro para o outro. 

Mesmo sabendo que máquinas do tempo não existiam, ela, já acabada e não conformada, estava mais uma vez  (se eu soubesse até diria exatamente qual vez era essa, mas certamente já passara de mil) estava sentada na sala. As paredes cobertas de mofo. Apenas uma panela em cima do fogão... sinal de que nunca se importara realmente com o que comia depois que ele se foi. Nada mais importava. No banheiro, sua escova de dentes intocada, as toalhas limpas estavam dentro da gaveta, cheirando  a mofo, cheirando a tempo passado, cheirando a morte do que fora um dia tão vívido.

Só abria os olhos à noite, acho que a escuridão sempre foi muito receptiva com ela, talvez fosse isso que a tornasse tão afim da noite. Passava o tempo que lhe restava trocando os canais da televisão, procurando o rosto dele naqueles rostos. Mas não seria capaz de imaginar como ele estaria hoje. Nada mudara de lugar e isso era impressionante.

As roupas que ele deixara para que fossem lavadas continuavam jogadas em um cesto no canto esquerdo do pequeno banheiro. Ela nunca mais deitara na cama depois da partida. O lençol estava poeticamente amassado exatamente como ele o deixou quando dormiu ali pela última vez há 12 anos atrás. 

E tudo era triste, era triste demais. Uma alma definhava, uma alma pedia um grito de socorro mas não com a voz e sim entregando seus dias ao vento... à crueldade do tempo. 

1 comment:

César said...

Darkness is lovely with Freak, cause she talks with the stars in the sky. Please, don't forget to shine away with them, forever...